Até que ponto a miséria me surpreende?
Creio que o limite é ténue e muito próximo do infinito.
A pele arrepia-se por um segundo... Mas o sentimento que fica é de tal modo vago, tosco que mal me apercebo... E para quê dar conta? A distância que me separa da miséria dos outros é curta... A qualquer momento o mundo pode tombar e desabar em mim. No fim de contas, que sei eu de miséria... Não a sei definir, não tenho como a identificar... Claro que posso reconhecer o mendigo e o pedinte... Mas serão esses os únicos miseráveis? Será que a desgraça se resume a roupas escuras e andrajosas, pele suja e cheiro pestilento? Não há miseráveis de pele limpa e hidratada?
Quando me dou conta, já estou a olhar para todas as pessoas que me rodeiam, inquirindo como serão por dentro, de que são feitas, se padecem ou se se anularam... A rapariga que distraidamente mete o indicador (acusador) narina adentro, o miúdo que se penteia constantemente mirando o reflexo no vidro do metro, a senhora que teima em arranjar lugar sentado... Até a rapariga com nítido excesso de peso que declina, com a delicadeza que no momento consegue encontrar dentro de si, o lugar sentado... “A Senhora está grávida, sente-se”... “Não obrigada... Eu não estou grávida!”... “Ah... Desculpe, sim?”... Miséria? Inodora... Incolor...
Sem querer, sem me aperceber, sigo por todos os espaços de ideias fixas... Descobrir se os outros conhecem a sua desgraça... Talvez seja a forma mais segura de me precaver e prevenir a minha...
Uma mulher grita do outro lado da rua, mas não entendo o que diz... E o dia já está no fim, os candeeiros já estão acesos... Discussão entre um casal de idosos... Dó... Ele ameaça bater-lhe, chama-lhe nomes horrendos... Ela calada... Levanta o chapéu de chuva e acerta-lhe na fonte... Uma mão qualquer segura-a, ele escorre sangue da testa... “Por favor... Os senhores deviam respeitar-se um ao outro... Deviam ser o amparo um do outro”... “Não se meta.!”... Curioso... O único andrajoso que vi, não me pareceu miserável... Estava bêbado, sim... Mas ria-se...
Passo mais uma esquina antes da estação de comboios... Mulheres de quarentas piscam o olho a um rebarbado qualquer... Nojo... Mas não delas...
Miséria? Não sei o que é... Mas começo a ter medo... Não vá um dia o mundo tombar e desabar em mim.
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